Assunção de Nossa Senhora

Neste domingo, a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora substitui o 20.º Domingo do Tempo Comum.

Primeira Leitura: Apocalipse 11,19-12,10

19. Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca do seu testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva.

1. Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.

2. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz.

3. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas.

4. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho.

5. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono.

6. A Mulher fugiu então para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias.

7. Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate,

8. mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles.

9. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.

10. Eu ouvi no céu uma voz forte que dizia: Agora chegou a salvação, o poder e a realeza de nosso Deus, assim como a autoridade de seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e noite, diante do nosso Deus.

Salmo 44

10. Filhas de reis formam vosso cortejo; posta-se à vossa direita a rainha, ornada de ouro de Ofir.

11. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece o teu povo e a casa de teu pai.

12. De tua beleza se encantará o rei; ele é teu senhor, rende-lhe homenagens.

16. Levadas entre alegrias e júbilos, ingressam no palácio real.

Segunda Leitura: Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, 15,20-27

20. Mas não! Cristo ressuscitou dentre os mortos, como primícias dos que morreram!

21. Com efeito, se por um homem veio a morte, por um homem vem a ressurreição dos mortos.

22. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão.

23. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; em seguida, os que forem de Cristo, na ocasião de sua vinda.

24. Depois, virá o fim, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação.

25. Porque é necessário que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés.

26. O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus sujeitou tudo debaixo dos seus pés.

27. Mas, quando ele disser que tudo lhe está sujeito, claro é que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas.

Evangelho: Lc 1,39-56

39. Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá.

40. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.

41. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

42. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.

43. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?

44. Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio.

45. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!

46. E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor,

47. meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,

48. porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações,

49. porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.

50. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem.

51. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos.

52. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.

53. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.

54. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,

55. conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.

56. Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa.

Reflexão

O sinal mais forte da presença de Deus no meio do povo de Israel e o objeto mais precioso de Israel, no Antigo Testamento, era a Arca da Aliança, uma pequena caixa de madeira de acácia, revestida de ouro, de uns 70×35×35 cm de dimensão. A tampa dessa arca era chamada de propiciatório e tinha dois querubins de ouro, voltados um para o outro de rosto voltado para a caixa e asas para cima (cf. Ex 25,18-20; 37,7-9). Estes querubins e a arca marcavam a presença de Deus orientando os caminhos de Israel (cf. Ex 25,22; Nm 7,89; 1Sm 4,4; 2Sm 6,2). Esta arca continha o documento da Aliança, que eram as taboas de pedra com a inscrição dos Dez Mandamentos dados por Deus a Moisés no Monte Sinai, a vara de Aarão, que havia florescido, identificando o sacerdote escolhido por Deus (cf. Ex 7,12; Nm 17,23.25), e alguns exemplares do maná (Ex 16,31-35), alimento com o qual Deus alimentou o povo de Israel na caminhada rumo à terra prometida.

A primeira leitura, de Ap 12, e o Evangelho da Visitação querem nos mostrar que Maria Santíssima é a Arca da Nova Aliança, estabelecida por Jesus Cristo, com o seu sacrifício no Calvário. Assim, no Apocalipse, logo após a visão da Arca da Aliança do Antigo Testamento aparece a Mulher que dá à luz “um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro”. Por esta expressão, podemos ter a certeza que a mulher “revestida de sol” é a Mãe de Jesus. Tal expressão só aparece na Bíblia em uma passagem do Antigo Testamento (Sl 2,9) e três vezes no Apocalipse (Ap 2,27; 12,5; 19,15). No Salmo 2, se diz: “Sou eu, diz, quem me sagrei um rei em Sião, minha montanha santa. Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo. Tu as governarás com cetro de ferro, tu as pulverizarás como um vaso de argila” (Sl 2,6-9). Se quem governa as nações com cetro de ferro é o Filho, gerado pelo Pai, a Mulher que o gera só pode ser Maria Santíssima (cf. Ap 12,5). As passagens do Apocalipse também todas se referem a Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Maria Santíssima é a Arca da Nova Aliança porque essa Aliança é selada pelo Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo dado aos homens como alimento de doação e por meio do qual é dado o Espírito Santo (cf. Jo 19,34). O Corpo de Jesus Cristo tem sua primeira morada no ventre puríssimo da Virgem Maria. Assim como as táboas da Lei eram o sinal do pentecostes judaico, o Espírito Santo, sinal do pentecostes cristão é dado pela doação do Corpo de Jesus Cristo, e este saiu de Maria (cf. Jo 16,7); Jesus é também o sacerdote da Nova Aliança (Hb 4,14; 5,6.10), oferecendo o seu Corpo (Hb 7,27; 9,25) e substitui assim a vara de Aarão. E Jesus Se dá em alimento para a nossa caminhada para a terra prometida, instituindo a Eucaristia, sendo, por isso o novo maná. Então Maria, na qual o Pai, por meio do Espírito Santo, gerou a natureza humana de seu Filho Divino, é a Arca da Nova Aliança, sinal da presença de Deus no meio do seu povo cristão. A mulher do Apocalipse é também a Igreja (cf. Ap 12,6), da qual Maria participa como ícone e símbolo máximo, Esposa do Senhor. Este tema dos esponsais de Maria com Deus é representado pelo trecho do salmo 44. Maria é a Esposa do Senhor porque é na humanidade inteira a única pessoa que nunca colocou resistência aos planos de Deus. É a única sem pecado, a única Imaculada. E isto coincide com a sua prerrogativa de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28: kekaritomene = cheia de graça). Isto significa que em Maria tudo é graça de Deus e permanece graça de Deus. A humildade de Maria, a “pobre em espírito” (cf. Mt 5,3; Lc 1,48) por excelência, está em não se apossar de si mesma e de seus dons, deixando-os sempre em total disponibilidade para Deus. O pecado se caracteriza pela pessoa se apossar dos dons de Deus, assumindo poder sobre eles e rejeitando o poder de Deus. Deus é Amor que une e realiza comunhão de vida. Com o pecado, a pessoa humana rejeita Deus, quer ter ela mesma o poder e impede a comunhão que Deus quer estabelecer. Maria é a Esposa porque não coloca resistência. É sempre a “cheia de graça”.

Também o Evangelho da Visitação, que lemos neste dia santo nos mostra que Maria é a Arca da Nova Aliança. O texto da Visitação, escrito por São Lucas, nos remete para 2Sm 6,1-12. vemos aí uma série de paralelismos entre as duas passagens. Oza toca a Arca de Deus e morre (2Sm 6,6-7); Maria é a sempre Virgem, que nenhum homem pôde tocar. Davi diz: “Como entrará a arca do Senhor em minha casa?” (2 Sm 6,9); Isabel diz: “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Lc 1,43). A arca da aliança antiga fica na casa de Obed-Edom. Obed-Edom significa “servo de Edom”. Maria se identifica como a “serva do Senhor” (Lc 1, 38.48), ou seja Obed-Adon. A arca antiga ficou três meses na casa de Obed-Edom; Maria fica três meses na casa de Isabel. Com tantas “coincidências”, fica claro que Lucas tinha em mente 2Sm 6,1-12 e quis mostrar Maria como a Arca da Nova Aliança.

A festa de hoje refere-se à Assunção de Maria ao céu, dogma definido a 1.° de novembro de 1950, pelo Papa Pio XII, sobre uma doutrina na qual os fiéis já acreditavam há muitos séculos. A segunda leitura, referindo-se à ressurreição dos fiéis, celebra que Maria já está em corpo e alma na glória de Deus, antecipando a glória reservada a todos os eleitos e enchendo os fiéis de esperança. Deus não quis que se corrompesse a Arca da Nova Aliança, a Mãe de Seu Filho, a única criatura humana que jamais resistiu à Sua graça.